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sábado, 10 de dezembro de 2016

Vida oito 

Chegou o Renascimento com esplendor.
Saído para o sol envergonhado
com o lagarto que vestia por igual
o jeitoso e o andrajoso e os que tal
assim nunca se tinham aperaltado.
Debutante num primeiro de agosto
num escritório, muita praxe a receber
tendo embora humor, ia além do gosto
mas que era menos mau do que o perecer.
A corrida a escola p’ra ir em frente
revelou-se tarefa monumental
aqui não temos vagas ali talvez
em S. Amaro conseguiu-se enfim vez.
Faltava então o tempo o tempo o tempo
que pouco sobrava para dormir
gasto em longas horas de ir e vir
e as manhãs ainda breu, um tormento.
No outro inverno veio a escola do chiado 
e um ensino com fama conhecida
que despertou em mim o morto fado
de que aprender é coisa divertida.

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quinta-feira, 30 de junho de 2016

Vida sete 

Vieram depois mais séculos assim
Lentos na agonia de uma disputa
Entre o querer saber e a ignorância
Perdendo a inocência da infância
Mas sem nada mais para a preencher
Foi assim saltando entre receios
Que entre aulas sem fim e curtos recreios
Se foram derrubando as barreiras.
Cada ano, século, era uma batalha
Vencida à bruta, sem maneiras
Sabia só que sair ileso
E depressa da guerra de tantos séculos
Era o fito que retardava o adormecer
E logo agarrado ao acordar
Ar, ar, ar 
A falta dele era então o estímulo 
E em cada ano, século, que (se) passava
Via-se ao fim do túnel a claridade
Por que desde a Casulo ansiava.



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domingo, 10 de abril de 2016

Vida seis 

Vem de supetão o Século V, 
Início sem pompa da idade média
Ainda a escuridão é dominante
E o meu mundo fica mais cristão
Com missa às seis e meia
E a fé difícil antes do café
A razão é um mistela de ideias
E assim será por muito tempo
Os clássicos são a Bola à segunda
O Cavaleiro andante aos quadradinhos 
O tim-tim para os afortunados
E a ordem sempre a ordem lá
Virá para o final Santo Agostinho
A Patristica enquadra a carneirada
O que mais custa é o tempo que se arrasta
E os muros a cercear a liberdade.

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quarta-feira, 2 de março de 2016

Vida cinco 

Nas trevas fomos morcegos 
Sem luz aguçam-se outros sentidos
E se uma réstia vence a escuridão
As lágrimas viram caleidoscópio
Lembrança do bruá das Salésias ali vizinhas
Do monte de Santo Amaro ali de frente
De resto muros altos e grades
Fica a rotina do banho às vezes frio
E a comida quase lavagem
E o cabelo rapado a quatro zeros
E as aulas câmaras de tortura
Até adormecer contra os  azulejos azuis 
De pássaros e peixes
Foram IV séculos.

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sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Vida quatro 

E os cinco e os seis e os sete
Passaram-se em liberdade em quinta de falido
Cerrado de nome nunca se viu serrar 
Um dia acabou-se-me a liberdade 
Ía um outono com sol
Estranhou-se a roupa nova e a fotografia pr’ó futuro
Para aquela viagem de fim trágico
Belém seis da tarde sol escondido
Um último bolo a saber a rolha na Casulo
E os adeus e beijos nas lágrimas e soluços
Era o princípio de um choro de nove anos
Nove séculos de trevas.

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sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Vida três 

Nāo era a casa na árvore
Era a árvore na casa
Na adiada Alta de Lisboa
Era o tempo sem airbuses e boeings
Perto as avionetas ladeadas de arbustos
Eram visitadas aos domingos 
Por crianças com sorvetes e moinhos de vento
Havia tempo sem horas
E horas de terror
Se  o homem da casa entrava bebido
E desfazia o candeeiro de petróleo
Preenchendo o escuro com o inferno da violência
Tónio, Tónio
E o choro à procura da razão. 

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terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Vida dois 

Morte do homem chefe que não foi 
E depois a fuga pr’ó Egito
A máquina de costura à cabeça: a bagagem
Ela mais dois miúdos com sacolas cheias de nada
E a viagem pr’à capital
Para trás prados e florestas para sempre 
Os dias alagaram-se em lágrimas e apertos
Por receio ou por emulação
Ía o ano de 52 e a cauda da segunda guerra
Quando Lisboa se construía nas quintas falidas
E se alargava em início do caos que duraria
E havia fome, muita fome e muita ordem.

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sábado, 6 de fevereiro de 2016

Vida um 

No primeiro conhecimento
Há um campo a ser lavrado
Há uma junta de bois
Há uma merenda de ovos a meia tarde
E o cheiro do húmus como perfume
Há uma cesta à cabeça e eu dentro
De casa à Cruz de Pedra
Envolto num xaile preto
Ficar ali a ver os bois
E a charrua a rasgar o verde
E a terra castanha escura a oferecer-se
Sería Maio e a sementeira de cevada
Três, quatro anos? Talvez menos
Naquela tarde toquei o céu
Guardo o como é simples a felicidade.

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